Reflexões 24.07.01 - A LINGUAGEM MOMETÁRIA
- Lu_rsr

- 31 de jul. de 2024
- 3 min de leitura
Atualizado: 3 de set. de 2024
A LINGUAGEM MOMETÁRIA
Como podemos falar de salário-mínimo sem falamos de salário-máximo? Como podemos falar de erradicação da pobreza sem falamos da erradicação da riqueza? Qual o sentido da racionalidade se não ponderamos igualmente ambos os extremos de um mesmo conceito? Não será a desigualdade fruto de um desequilíbrio desses extremos? Anular somente um lado impulsiona integralmente ao outro. Cuidemos para que esse caminho não seja apenas uma ilusão de equidade.
Eu entendo de onde fala pois é a estrutura em que somos instruídos desde o ginásio, alguns desde o primário, outros desde o nascimento. E, quanto mais próximo ao vestibular, mais matemático moldam ao nosso modo de pensar. Pois não estamos preocupados em desenvolver humanos, mas em formatá-los para a produtividade de um mercado de trabalho. Onde aprendemos a buscar e comparar números. Salários. Pagamentos. E o que fizemos com nossas aptidões? Com o que as pessoas ao nosso redor realmente carecem e que podemos contribuir para nos desenvolvermos enquanto coletivo, enquanto sociedade? Sacrificamos, inclusive, nossa saúde e nosso bem-estar com receio de perdermos a um único número já conquistado.
Os pensamentos para além dos números, das regras, do literal são vetados da nossa criação, da nossa educação, do nosso convívio. Porque os algarismos ditam. As novas correntes. As regras, as exclusões, as segregações, a escravidão. Das nossas escolhas. Nenhum número é capaz de representar quantas árvores foram necessárias para construir cada cadeira que nos sentamos. Nem quantos anos levaram para essas árvores se desenvolveram até seu estado “ótimo” para corte. Nem quantos prestadores estiveram envolvidos na confecção dessa cadeira – do pedaço de “madeira cru” ao “produto final” entregue em um local para seu uso. Falamos de “energias limpas”, mas a verdade é que mal entendemos a complexidade de sistemas que estão entrelaçados com o que entendemos por “gasto energético”. Não é apenas sobre conta de luz ou de consumo por equipamentos eletrônicos. Mas, quando olhamos aos números absolutos, aos resultados, tal como nos ensinam, vemos apenas números. Indicam o que é mais do 1. Ou menos do 1. Simplificações? Ou desumanização? Os números deixam de ser vidas, processos, sistemas. Ocultam aos anos de desenvolvimento das matérias-primas. Ocultam à dedicação das espécies, dos elementos, da energia para sua formação. Quanto mais números, melhor. Ou pior. A depender se é o emissor ou o receptor quem o lê. Como se só existissem 0 e 1. Os grandes binários. Ou as cruéis dicotomias.
Como se fossemos extremos de uma linearidade. E, não, partes complementares de um sistema complexo, fluido e em continua transformação. A calculadora é bem-vinda, assim como as tecnologias. Enquanto ferramentas, enquanto auxiliares de um entender de extensões e complexidades. Mas, não, enquanto soluções, respostas e resultados. Porque esse é o ponto que está nos levando ao gradual declínio cognitivo. Assim como uma eficiência superior das máquinas (inteligência artificial) e aspiração por substitutivas de nós – humanos – atuais prestadores de serviços. A inteligência artificial nasce dos binários (números) e, em comparação à capacitação de cálculo humana, ela é soberana. Pois somos seres vivos. De uma complexidade superior à simples capacidade de fazer contas.
Serão os números capazes de gerar a “fórmula” do amor, da fé, do medo, da compaixão? A fórmula do sentido da vida? Como se o Viver coubesse em fórmulas. Será que os números são capazes de responder: por que viemos a este mundo ou temos consciência dele? Por que temos esse tempo de vida ou de morte? O que faz a nossa Existência ser real? Não há dúvidas que muitos arriscarão dizer que sim, numa proeza de extensão de binários. Mas nos perguntemos: como acreditar que algo que não vive a mim, ao meu sistema interno, pode saber sobre os meus sentidos, afetações, percepções? Todos somos parte indivisível e indecifrável de um sistema complexo e multitemporal. Cada um de nós, cada ser vivo, cada elemento carrega sua contribuição em seu tempo de ação e restauração ao grande sistema que compomos em conjunto.
Por isso os convido a uma abordagem aberta, ampla e direcionada a quem nos busca ou nos encontra. Um contínuo convite ao pensar com os sentidos, as percepções e as afetações. Um convite ao aprender para além da visão, da linguagem, dos valores, da comunicação. Um convite ao nosso desenvolver natural – adaptativo e restaurativo. Livre de correntes e excessividades. Se esse valor monetário faz sentido para você e parte de um ato consciente, os gerando paz de espírito enquanto um gesto de reconhecimento, recebamos com igual gratidão. Mas não ditemos seus números, nem comparemos ao amanhã. Pois, hoje, nosso encontro foi fruto da nossa coexistência, do nosso desenvolvimento, do nosso Ser social.
Escrito por @Lu_rsr

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